CAPÍTULO 1
O SISTEMA BIOENERGÉTICO
Substituímos, portanto, o conceito de Aparelho Psíquico pelo de Sistema
Bioenergético. Isso garante uma melhor representação da nossa linha de trabalho.
Nossos conceitos respondem mais à realidade observada do que ao dogma da teoria. Dessa forma, evitamos a rigidez temática para facilitar a perspectiva dinâmica e econômica da personalidade. Os conceitos de psique, corporalidade e energia são reunidos em uma unidade funcional que chamamos de Sistema Bioenergético. Se representássemos o Sistema Bioenergético de qualquer ser vivo com um círculo — de um protozoário a um mamífero superior — veríamos como seu funcionamento plasmático é idêntico: processos de contração e carga alternam-se com processos de
expansão e descarga bioenergética. Cada descarga é vivenciada como prazerosa. E cada carga além de um certo limite pode ser prazerosa se houver uma promessa concreta de descarga. Excitação com satisfação futura. Caso contrário, carga sem descarga é desagradável. Na minha opinião, não há contração sem a opressão da carga sexual, sem a promessa
de liberação, assim como não há expansão emocional e corporal sem liberação libidinal ou orgônica. Mesmo a contração defensiva de qualquer biossistema é sempre uma contração bioenergética. A contração crônica resulta em retração depressiva. Não se trata de falta de energia;
pelo contrário, toda doença depressiva é uma compressão de energia (do verbo “comprimir”). Uma catarse oportuna liberta momentaneamente a pessoa deprimida de seu sofrimento.
Como a contração depressiva afeta e retroalimenta o ciclo funcional dos
neurotransmissores essenciais para a estabilidade emocional: ocitocina, serotonina e dopamina, é uma questão que só poderá ser respondida no futuro por meio de pesquisas realizadas por equipes multidisciplinares.
Por enquanto, nesta digressão, mantemos o conceito de que toda depressão é uma compressão (do verbo “comprimir”) de energia, independentemente do gatilho depressivo.
Um esclarecimento relevante para a compreensão do funcionamento dos seres vivos: para Sigmund Freud, a energia das pulsões é de origem endógena. Elas são produzidas dentro do organismo. Ainda não está claro se hormônios ou glândulas sexuais sintetizam a força pulsional ou se são simplesmente produtos bioquímicos que transmitem as pulsões.
De qualquer forma, de uma perspectiva anatômica e fisiológica, podemos identificar as glândulas ligadas às supostas pulsões sexuais, mas isso nos impossibilita a identificação das glândulas tanáticas. Essas últimas especulações de Freud são místicas e irrelevantes.
Elas confundem pulsões secundárias com supostas “pulsões tanáticas”.
Para Wilhelm Reich, a energia vital ou energia primária é encontrada de forma livre na natureza e, por extensão, em todo o cosmos. Ela entra na biossistema por meio dos elementos que interagem com o corpo: oxigênio, alimento, água, contato com a pele, contato com o ambiente vivo, sons, alimentos, etc.
Reich chamou essa energia que entra na biossistema de “energia ligada à massa” ou bioenergia. Vale destacar o ponto de divergência com Freud: para Reich, a bioenergia, ou libido, é exógena ao indivíduo. O sistema hormonal é um dos sistemas que transporta e distribui a carga energética do ambiente por todo a biossistema.
No entanto, não é o único sistema de distribuição de orgôn. As hemácias também transportam e distribuem bioenergia por todo o organismo.
Cabe ao leitor refletir sobre ambas as abordagens da libido: a endógena de Freud e a exógena de Reich.
O Teste de Sangue de Reich mede precisamente o potencial orgonômico do indivíduo. Não é um teste que analisa os componentes e valores do sangue, mas sim sua potência orgonôtica (PO). Esta é a capacidade do sangue de criar pacotes de energia vital na forma de bíons.
O ego psíquico busca um objeto e busca sua liberação quando os níveis de orgôn excedem a tolerância do biossistema. Se não houver grandes bloqueios emocionais, a regulação homeostática entre a entrada e a saída de orgôn ocorre naturalmente e se autorregula.
Qualquer desequilíbrio nesse processo gera acúmulos de orgôn: êxtase energética. O primeiro sintoma será a ansiedade devido à sobrecarga. Essa sobrecarga oprime o sistema cardiovascular, causando ansiedade.
Se o livre movimento da energia for bloqueado, ela se transformará em impulsos secundários cruéis e antissociais. Ela buscará liberação por meio da hipercaptação de zonas erógenas pré-genitais já abandonadas, além de influenciar todo o sistema muscular periférico.
Sadismo, crueldade e pré-genitalidade serão as consequências da repressão. Mas o processo não termina aí. Uma terceira camada de repressão social, chamada “moralidade pública”, inibirá as pessoas, impossibilitando-as de expressar seus impulsos antissociais e pré- genitais. Esta é a terceira camada do neurótico bem ajustado, que
opera sob forte contra catexis diante de seus impulsos secundários, como mencionado acima.
O sintoma psiconeurótico emerge como uma liberação patogênica. A punição se estabelece como a vigília do sintoma. A punição é organizada com a mesma energia que alimenta a estagnação libidinal. A couraça fantasmática – punitiva alojada na identidade do sujeito é então configurada e, a partir daí, organiza-se a estratificação da couraça protetora narcísica que resguarda o ego psíquico, que Reich chamou de couraça carátero-muscular. Essa interação de defesas e impulsos secundários tenta emergir durante a sequência temporal da vida do sujeito.
Vale ressaltar que a couraça carátero-muscular é a resposta imediata à couraça punitiva fantasmática. Ela surge como consequência da primeira.
Por meio de sintomas, expressões pré-genitais da libido e impulsos cruéis que vazam dessa segunda repressão social, o sujeito neurótico tenta descarregar parte da estagnação libidinal.
Digamos que a estagnação libidinal é o agente tóxico que nos adoece; e os impulsos secundários são o agente tóxico que adoece o ambiente social.
Em condições naturais, as pessoas descarregam o excesso de orgôn por meio da função homeostática do orgasmo, do trabalho criativo e de todas as atividades humanas
prazerosas: arte, esportes, música, literatura, o desfrute de laços sociais, viagens etc. são formas orgásticas de vivenciar a existência humana. O orgasmo genital, que sempre ilustra uma evolução adulta da personalidade, é pós-ambivalente por natureza. É um equilíbrio entre a entrada de orgôn na biossistema e a saída de orgôn (descarga). Essa é a principal função do orgasmo: equilibrar a entrada e a saída de bioenergia.
Secundariamente, e somente secundariamente, a função reprodutiva surge como consequência evolutiva de sua função principal: o equilíbrio homeostático. Não há propósito reprodutivo primário na natureza. A natureza não tem intencionalidade. Ela é simplesmente governada pelo Princípio de Pulsação: Contração (preenchimento de orgôn) e expansão (descarga de orgôn).
O preenchimento de orgôn é uma expansão interna da biossistema. Após o
preenchimento, há um segundo estágio de contração (expulsão de energia
experimentada como prazerosa), que é seguido pela expansão propriamente dita (descarga). Tecnicamente, a FÓRMULA DA VIDA, como Reich a chama, teria quatro estágios:
1. Entrada de orgôn;
2. Carga de orgôn na biossistema;
3. Descarga através da contração das paredes musculares e expressões emocionais;
4. Expansão ou descarga como resultado da contração.
Dessa forma, o ciclo da vida se repete. A reprodução da espécie é uma consequência secundária da evolução. É incorreto atribuir funções reprodutivas ao orgasmo. A função do orgasmo é regular o excesso de fluidos. Sua função é homeostática. A reprodução das espécies é um efeito secundário dessa função primária. O touro vai até a vaca para liberar sua energia, não com a intenção de reproduzir sua espécie. É incorreto atribuir funções intencionais à natureza. A natureza simplesmente opera sob a premissa da energia. É assim que todo ser vivo funciona.
